O Proverbial Filme de Ficção Científica
 

Stanley Kubrick e o escritor Arthur C. Clarke se conheceram pessoalmente em 22 de abril de 1964, no restaurante Trader's Vic, do hotel Plaza de Nova York. O diretor convidou Clarke para o encontro a fim de propor uma parceria em seu novo filme, um projeto ousado, que trataria da relação do Homem com o Universo, algo nunca antes realizado na história do cinema. Kubrick tinha uma idéia muito clara daquilo que queria e acreditava que Clarke seria a pessoa mais adequada para ajudá-lo a atingir seu objetivo: fazer uma obra que fosse o proverbial filme de ficção científica.

Stanley Kubrick
Arthur C. Clarke

Em início de maio, após várias partidas falsas e horas de conversa, Kubrick concordou que o conto A Sentinela, escrito por Clarke em 1951, seria o ponto de partida para que eles desenvolvessem o argumento do filme, ou seja, a trama de ações e acontecimentos que serve como base para a escritura do roteiro. Ao final do mesmo mês, no dia 28, Clarke formalizou a parceria assinando um termo de compromisso como colaborador do projeto.

Foi traçado, inicialmente, um cronograma que previa a finalização do filme num prazo máximo de dois anos. Entretanto, jamais poderiam supor que os trabalhos acabariam por tomar o dobro do tempo, sendo o filme lançado em abril de 1968.

Durante esses quatro anos ocorreu de tudo. Um doido varrido colocou na cabeça que Kubrick precisava empregá-lo e ficou sentado num banco fora do edifício por duas semanas. Como, de vez em quando, o homem entrava para uma nova investida, o diretor achou melhor se prevenir, passando a andar com uma faca de caça em sua pasta.

A todo momento surgia algum imprevisto: aviões cruzando o céu durante as filmagens da seqüência pré-histórica do osso (a única executada em ambiente externo), morcegos invadindo a paisagem lunar do estúdio, impressões digitais que surgiam inexplicavelmente sobre o monolito (deixando Kubrick furioso)... E todos os tipos de contratempos peculiares das produções grandiosas e complexas.

Assim como quase tudo no filme impelia ao espaço, o orçamento de 10 milhões de dólares era, àquela época, astronômico. Contudo, isso não consistia verdadeiramente num problema, visto que a produção caía como uma luva aos interesses políticos de então: era preferível vender um futuro de estações orbitais e viagens interplanetárias a deixar o público à mercê de um presente sem perspectivas, marcado pelos massacres diários do Vietnã e pelos gastos fabulosos promovidos pela corrida armamentista – além de funcionar como uma propaganda eficiente à própria corrida espacial, que também consumia o dinheiro público aos borbotões.

Enfim, 2001 não somente foi um grande sucesso mundial como se tornou o maior filme de ficção científica de todos os tempos. A versão lançada nos cinemas em 1968 contava com 156 minutos de projeção, mas uma montagem final reduziu a obra para 138 minutos. O título primeiramente imaginado, Jornada Além das Estrelas, foi modificado por Kubrick visando conferir, à semelhança da Odisséia de Homero, maior pompa e grandiosidade ao filme.

Injustiçado pela Academia, visto que recebera apenas o Oscar de Efeitos Especiais, 2001 arrastou multidões aos cinemas e voltou os olhos do mundo para o cineasta Stanley Kubrick. O tema Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, foi tão habilmente incorporado à obra que, hoje, é popularmente conhecido como a música do 2001, estando fadada à derrota qualquer tentativa de dissociar a composição musical da lembrança do filme.

Aliás, podemos falar horas e horas sobre o quanto estrondoso 2001 foi à época e quanto ainda será, pois não falamos de um filme de ficção qualquer, mas do proverbial filme de ficção científica.

 
* As informações apresentadas acerca do processo de desenvolvimento do filme foram, em sua maioria, retiradas do livro Mundos Perdidos de 2001:
 
CLARKE, Arthur C.; Mundos Perdidos de 2001; Ed. Expressão e Cultura (1972); Rio de Janeiro, Brasil