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I - A Alvorada do Homem (e do enigma) |
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O Animal Como todos os seres ditos irracionais, o homem-macaco guiava-se instintivamente. Se sentisse sede, fome, calor ou frio... Se uma situação perigosa fizesse a adrenalina jorrar na corrente sangüínea... Se os hormônios sexuais atraíssem macho e fêmea... O homem-macaco iria beber, comer, procurar a sombra ou o Sol... Iria atacar ou fugir... Iria se acasalar, se reproduzir e defender suas crias... Enfim, responderia aos estímulos de acordo com os estritos limites de seu legado genético. Assim tem início 2001: o homem em seu momento unicamente animal. Tal introdução, no entanto, focaliza de forma bem clara um ponto em especial: a luta pela sobrevivência. Disputando com o tapir os frutos das plantas rasteiras ou lutando com outros grupos de símios pelo domínio de uma fonte de água, o homem-macaco sobrevivia, dia após dia. |
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| Desprovido de garras, chifres ou qualquer outra arma natural que potencializasse sua capacidade de defesa, era comumente preza fácil de felinos e outros predadores. Seu cérebro, escravizado à dimensão estímulo-resposta, destinava sua vida à imobilidade característica de uma existência voltada unicamente à reprodução de seus mecanismos de sobrevivência e de perpetuação da espécie. O Monolito Após toda uma introdução acerca do cotidiano vivido por nossos antepassados primitivos, a aparição é, no mínimo, surpreendente. Sob a luz prematura da alvorada, o homem-macaco confronta-se com um misterioso monolito erguido defronte de seu abrigo. Como resposta natural a tão imprevisto estímulo, ele reage com medo e cautela (reações instintivas apropriadas à manutenção de sua sobrevivência), rendendo-se somente em seguida à curiosidade da aproximação e do toque. |
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No entanto, a pouca (ou nenhuma) intimidade da grande maioria dos espectadores para com o raciocínio abstrato, acaba por comprometer todo tratamento simbólico conferido a essa alegoria. Para esses, a partir de então, a problemática primeira do filme passa a girar ao redor de quem teria colocado aquele objeto lá e com qual intuito? algo infinitamente redutivo, próprio daqueles cujos horizontes estendem-se poucos metros à frente. Analisemos o monolito, contudo, sob um olhar atento e descobriremos que, mesmo em sua inércia pétrea, ele tem muito a comunicar. Uma primeira e interessante observação pode ser feita acerca de seu comprimento. Prolongando-se por aproximadamente três metros acima do solo, o monolito tem afirmada sua condição de superioridade perante o pequenino homem-macaco. Lembremos que a condição de estar acima pode igualmente significar o estar além, ou melhor, estar além da compreensão daquele que está abaixo.>Informação Adicional< Outro dado importantíssimo para que possamos posteriormente compreender sua significação é percebermos a associação monolito-perfeição: suas arestas são perfeitamente lapidadas, seu posicionamento é perfeitamente aprumado, seu colorido preto fosco é perfeitamente homogêneo em toda a sua superfície – esta, por sua vez, tão perfeitamente lisa que desperta a atenção do irracional homem-macaco. O take que finaliza a seqüência da aparição, no entanto, é tão importante à compreensão da obra quanto qualquer outro apontamento já feito acerca do monolito. |
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Através da conjunção LUA-SOL-MONOLITO-TERRA, Kubrick estabelece uma segunda associação crucial: monolito-equilíbrio. Seja qual for o significado desse misterioso objeto, sabe-se, a partir de então, que é princípio tanto de perfeição quanto de equilíbrio a própria simetria bilateral obtida através do jogo fotográfico de enquadramento e composição indica uma imagem equilibrada. Como parte integrante da conjunção, o monolito compartilha não somente do equilíbrio, mas também tem afirmada sua condição de igualdade com os demais elementos cósmicos. Não podemos nos esquecer, contudo, da condição primeira de toda conjunção: o equilíbrio entre os corpos só existe em função de um referencial, a partir do qual é possível traçar a linha imaginária que define tal fenômeno.>IA2< Qual seria, portanto, esse referencial? Ora, se voltarmos à imagem acima e prestarmos atenção à perspectiva através da qual a conjunção é vista, fica claro que se trata de um take de câmera subjetiva, ou seja, nossos olhos são os olhos do homem-macaco, ele é o nosso referencial.>IA3< O Detonar da Consciência O nascer do sol por detrás do monolito dá fim à última aurora do homem-macaco. Após o contato com aquele misterioso objeto, algo se desencadearia de forma irreversível em seu cérebro mecanizado. A seqüência do detonar da consciência>IA4< (uma das mais belas seqüências já filmadas) não deixa dúvidas quanto ao estopim do raciocínio. Utilizando um osso para golpear o esqueleto de um tapir, o homem-macaco (já não só macaco) descobre que nunca mais precisaria se submeter à escassa alimentação vegetal, deixando claro o fato de residir no impulso de sobrevivência a origem de tal evolução cerebral. |
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Embora, para a maioria dos espectadores, tais cenas pareçam um mero exercício de agressividade animal, elas são a garantia de que todos nós viéssemos a existir um dia. Se tal evolução não ocorresse, o homem-macaco pouco veloz e vivendo em constante estado de subnutrição num ambiente hostil dificilmente escaparia da extinção. O cérebro do recém-nascido homem primitivo seria suas garras, seus chifres, sua velocidade e sua salvação. Há, entretanto, no início dessa seqüência, um detalhe extremamente importante: no momento em que o homem-macaco tem detonada sua consciência (pegando, em seguida, um dos ossos do esqueleto), temos um rápido retorno ao take da conjunção. Ora, a inclusão desse take no instante exato em que a consciência é detonada só tem a afirmar a condição de tal detonar consistir num instante de equilíbrio, de perfeição. Consciência-Poder-Sobrevivência Se a utilização do osso como cacete vem a potencializar a capacidade de sobrevivência, esse, obviamente, vem também a funcionar como o primeiro instrumento de poder. A seqüência do confronto pelo domínio da fonte de água define claramente o tripé Consciência-Poder-Sobrevivência. Fazendo uso de ossos como cacetes, o grupo que esteve em contato com o monolito golpeia até a morte um dos componentes do grupo rival, afugentando os demais e tomando para si o domínio da fonte de água. |
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A lei do mais forte, a partir de então, sofre uma mudança radical em seu eixo, passando a imperar a lei do menos irracional. Sobreviverá, ao longo do tempo, aquele que melhor conseguir incrementar o osso. Se o impulso de sobrevivência é certamente o responsável por desencadear o processo biológico que culminou no detonar da consciência, esta, no ato de sua fundação, nasce obrigatoriamente como consciência do poder e do sobreviver. Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que os primeiros vislumbres conscientes do homem primitivo estavam diretamente relacionados às primeiras noções subjetivas de poder e de sobrevivência. Apontamentos Finais sobre o Capítulo I Como marco simbólico do alvorecer do homem, o monolito demarca claramente o momento a partir do qual o viver animal, objetivo, é transcendido.>IA5< Embora seu tratamento alegórico sugira uma associação com a perfeição e o jogo fotográfico de enquadramento e composição, no take da conjunção, nos remeta a associá-lo ao equilíbrio, sua aparição nada nos indica acerca da compreensão de como se deu, em nível cerebral, a passagem que destinou o homem-macaco à condição irrevogável de distanciamento das demais espécies ou, muito menos, acerca do porquê da espécie humana estar fadada a tal mudança em seu viver. Seria o impulso de sobrevivência, estimulado pela necessidade de otimizar a capacidade do homem-macaco perpetuar sua existência, o único motivo a promover o detonar de tal rumo evolutivo? Ora, nunca antes ficou tão claro o significado primeiro do monolito, sendo possível até mesmo resumi-lo em uma única palavra: enigma. O monolito corporifica o enigma, o desconhecido. Sabemos que um dia fomos meros animais irracionais... Sabemos que, a partir de determinado momento, viemos a transcender tal dimensão... Contudo, talvez nunca descubramos ao certo em que instante da escala evolutiva isso ocorreu, como se deu e porquê. Se, por um lado, a aparição do monolito é a mera corporificação do enigma do homem, por outro nos sinaliza a natureza perfeita e equilibrada de tal acontecimento cósmico. Cabe ao espectador, portanto, aguardar o desenrolar do filme à espera de alguma outra indicação que o ajude a decifrar o enigma. |
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